Quirina e Sebastião se preparavam para dormir. A cidade que viviam era pequena. Violência era palavra que não existia no dicionário daquele vilarejo.
A harmonia estava presente no cotidiano daquelas pessoas.
Todos se respeitavam e as hierarquias eram seguidas naturalmente.
A noite estava um esplendor. O céu era um manto estrelado e o único som que se fazia presente, além das batidas dos corações serenos, era de uma coruja que parecia dizer: "estou aqui velando por todos vocês".
Quirina ajeitava o seu leito para receber o marido. Apesar de serem pobres, a casa sempre fora muito cuidada. Cada cantinho tinha um detalhe que demonstrava que ali era um lar de amor.
O silêncio repentinamente foi quebrado.
Gritos foram ouvidos. Vozes implorando por misericórdia.
Negros acorrentados dando adeus à liberdade corriqueira.
Choro de crianças.
Desesperos femininos.
- Sebastião, o que está havendo?
- Foge mulher, foge. O navio negreiro aqui já chegou.
- Não pode ser!
A porta bruscamente se abre, entram sem ao menos pedir licença, imaculando o respeito que ali sempre existira.
Quirina abraça Sebastião com toda a sua força, com lágrimas saindo de sua alma.
- Não me abandone!
- Larga dele, sua vadia!
Sebastião foi tomado pelo medo e pelo ódio. Não reagira com medo do que pudessem fazer a sua amada.
-Venham comigo, vocês já não pertencem mais a esse lugar.
Acorrentados como animais, animais que sempre foram respeitados por aquele povo nativo, foram levados ao Navio Negreiro ancorado na prainha que antes só tinham como habitantes peixinhos multicoloridos.
" Liberdade Selvagem" estava escrito em letras garrafais na embarcação maldita.
- Liberdade!! Quanta ironia!
- Cala a boca! Você daqui por diante não tem direito de se expressar!
Foram separados pela primeira vez desde que contrairam o matrimônio. Sebastião ainda se lembrava daquela noite enluarada quando viu sua amada segurando flores selvagens caminhando para o derradeiro sim.
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